31.10.07

A Janela



“Da janela lateral, do quarto de dormir...”
Não, não. Eu gosto de Beto Guedes mas não é sobre isso que eu vou escrever. Quero falar é da janela pela qual eu olho todo dia, o dia todo. É aquela bem em frente ao meu micro. Dizem que os olhos são as janelas da alma, mas e a minha janela, é o quê? A janela é minha ligação com o mundo real. É por ela que eu vejo o mundo se movimentar.

Ela fica quase na esquina, mas mesmo assim eu não tenho uma visão ampla. Mas dá para eu ver carros passando, pessoas andando... tem pessoas que passam sempre no mesmo horário. Devem estar indo, ou voltando, de algum compromisso. Emprego talvez. Tem uma senhora, velhinha, que todo dia passa aqui. Ela tem dificuldades para andar e só se locomove com o auxílio de uma bengala. Às vezes é um andador mesmo. Para onde essa senhora vai, quase todo dia, com essa dificuldade de andar? Chega a dar uma certa angústia ficar aqui, no meu camarote, assistindo a luta dela para subir a rua íngreme.

Também tem um casal, mãe e filho, que trabalham vendendo material reciclável. Papel, vidro, plástico, alumínio. Eu sempre guardo algo aqui pra dar pra eles. Todo dia é a mesma coisa: lá estão os dois, às 5h30 da manhã – essa hora não estou acordado, mas quando eu saia esse horário para trabalhar, encontrava os dois – procurando pelas lixeiras algum material que possa render uns centavos. Eles enchem o carrinho umas três ou quatro vezes. Quando acabam, a senhora passa aqui em frente com um saquinho com pães.

Tem os momentos de voyerismo também, como não? Tem uma ‘vizinha de bairro’, uhm... magra, deve ter 1,70m, pele branquinha, com um cabelão comprido, liso e negro. Ela sempre passa aqui pela manhã, acho que vai até a padaria. Aparenta ter uns 24, 25 anos, ela tem uma tatuagem na cintura, atrás, do lado direito, que fica a mostra no espaço entre a blusinha e a calça. Ainda não consegui decifrar o que é. Preciso ficar mais atento na minha observação.

Essas pessoas estão em todo lugar. Mas foi preciso que eu as enquadrasse em minha janela para poder prestar atenção nelas e imaginar quem elas são, suas vidas, seus porquês.

She's a Rainbow

She comes in colors everywhere She combs her hair She's like a rainbow Coming colors in the air Oh everywhere She comes in colors

Have you seen her dressed in blue See the sky in front of you And her face is like a sail Speck of white so fair and pale Have you seen the lady fairer

Have you seen her all in gold Like a queen in days of old She shoots colors all around Like a sunset going down Have you seen the lady fairer

She comes in colors everywhere She combs her hair She's like a rainbow Coming colors in the air Oh, everywhere She comes in colors

Como eu não tenho nada pra escrever, vou falar sobre esse clássico dos Rolling Stones, "She's a Rainbow". Essa música foi lançada no "Their Satanic Majesties Request", de 1967. Quando eu ouço essa música me dá uma sensação estranha. Ela tem uma letra bobinha, mas de certa forma apaixonada, "Ela é como um arco-íris, Trazendo cores no ar..."

Essa é uma das músicas que eu ouço e me sinto bem, mesmo quando não estou lá muito animado. O instrumental tem 'cara' de anos 60, de Flower-Power. E traz um Rolling Stones ainda bem influenciado pelos amigos Lennon e MacCartney. Ela me faz pensar nos meus arco-íris, os que eu vi, que apareceram depois das chuvas fortes, e aqueles que eu imagino que podem aparecer enquanto o céu está escuro, carregado, e o vento forte bate no meu rosto. Eu gosto disso.

28.10.07

Sobrar

do latim superare - Verbo Intransitivo

Ser demais; sobejar, restar; ser mais do que suficiente. Ficar de fora (King Host)

Exceder; sobejar; restar; estar proeminente; ter em excesso; ter mais que o suficiente. (Priberam)

Haver mais do que o necessário; exceder (Michaelis)

Sobrando

6.10.07

Minha nova amiga, Malagueta


Essa é a Eduarda, também conhecida como 'Malagueta' ou 'Pimentinha'. É minha nova amiga.
Ela é uma das crianças que fazem parte do projeto Amigão, que desenvolve atividades com crianças carentes no bairro Jd. Santo André, aqui em Santo André. É um bairro imenso e muito pobre. Eu e alguns amigos da faculdade estamos montando um jornal comunitário no bairro, vamos ver o que vai dar.
É, esse texto não tem nada com nada, só porque eu queria publicar a foto da Malagueta, mesmo sabendo que ela e os amiguinhos dela dificilmente vão ver isso aqui. Não enquanto as coisas não mudarem na vida dessas pessoas. Que pelo menos eles tenham noção que é preciso mudar e que existem meios para isso. Quais eu também vou descobrir.

27.9.07

Efeito do Tempo - por Lilian Milena

Gostei, roubei, publiquei:

"Neste instante sinto vontade de me agarrar a qualquer pedaço de crença que me faça resistir. Não me faço mais um poço, mas sim um grande buraco com mais largura do que profundidade. Rasa! É assim que me sinto. Se me perguntarem, não saberei responder. Se me perguntarem, eu saberei dizer. Se me olharem, saberei retribuir. Quando me desafiarem, rogarei pragas, porque hoje sei que existem bruxas. Coisas de mulher.

No entanto, por tudo o que senti nesses últimos dias, vejo, quase claramente, que no lugar das pedras existem pedras. Elas são grandes, e belas, arredondadas e me chamam para marchar sobre. Num tom de deboche, por permitir que meus dedos descrevam o óbvio, meus pensamentos me dizem que algo novo bate nesta porta. Um Novo, com um laço grande pronto para ser cortado e queimado em oferenda, com perfume leve de sândalo.

Dou mais um passo para fora de minha velha casa porque preciso entender o que existe lá fora. É nesse instante em que eu verei o que quiser e sentirei vontade de me agarrar a qualquer mestre. Sete horas depois voltarei para dentro sentindo vontade de que alguém me prove o que vi e senti. E por que alguém? Não sei.

- Lilian Milena -

23.9.07

Eu não sei dizer...


Às vezes saio com minha câmera e vejo essas cenas. Clico, claro. Mas depois eu penso de que adianta eu fazer isso. Será uma simples atração pela desgraça alheia? Que diferença faz essa foto publicada em mais um dos milhares - milhões? - de weblogs por aí? Será que isso é a reprodução do que dizem sobre jornalistas, que são todos urubus procurando pela carniça?
Ou será que essa inquietação ao ver a foto na verdade é porque, se pararmos para pensar, isso é uma situação extremamente horrível, que incomoda pelo simples fatos de sermos humanos?
Eu não sei dizer. Eu só quero mostrar.

5.9.07

Confissões por R$ 2,30

"Mas aí não quis mais não! Desde o começo eu falei pra ele 'se você largar sua mulher, eu largo de você', e foi o que eu fiz né?"
"Ah é, e quanto tempo vocês ficaram juntos?"
"Quase um ano. Quando eu conheci ele, me contou que era apaixonado pela esposa e depois vem com esse papo de que o casamento não tá indo bem? Eu não quero não. Você sabe, eu pelo menos, gosto tanto quanto vocês, sabe né...? Mas eu não quero namorar um homem desse não".

Esse diálogo edificante eu ouvi agora a noite no ônibus, enquanto voltava do SESC, onde fui fazer uma reportagem. Por favor, não digam que eu fui indelicado, na verdade eu era o único passageiro do ônibus, além da moça que contava ao motorista suas peripécias como parte de um adultério, então não tinha como não ouvir a história.

E ela contava com todo conhecimento de causa, defendendo seu ponto de vista e sua condição de 'outra'. Interessante perceber a indignação da moça só de pensar em namorar 'um homem desse', como ela disse.

Claro, onde já se viu? Ela, que só quer ser a outra, namorar um homem que ela tem certeza que trai a esposa?! De jeito nenhum! Ela quer um homem honesto, fiel. Até que a morte os separe.

Em que outro lugar você pode conhecer os segredos humanos por apenas R$ 2,30?

29.8.07

Eu vi um Beijo

Eu vi.
Mas não parecia um beijo qualquer, me pareceu "O BEIJO".
Estava no Parque Celso Daniel com duas amigas - a minha câmera e uma cerveja long neck - só ali observando as pessoas que vão para o parque para serem observadas.
Então me chamou a atenção uma certa movimentação que envolvia um garoto e três meninas. Duas delas estavam com camisetas e bermudas de ginástica, de lycra, nylon, ou algo assim. A outra era uma loirinha, menor que as outras duas, que aparentava uns 11 ou 12 anos. E o garoto também devia ter essa idade.
Os dois estavam visivelmente constrangidos, enquanto as duas maiores estavam eufóricas e incentivavam o jovem casal.
Saindo da movimentação típica de um parque no sábado à tarde, o casal foi procurar um local mais reservado.
Encontraram um cantinho ao lado do banheiro masculino. Que lugar para ser lembrado na posteridade hein!? Ao lado do banheiro público de um parque.
Pois bem, só vi quando o garoto colocou as mãos nas costas da loirinha, isso depois de ficar parado olhando para a cara dela uns segundos que pareceram eternos. Até pra mim!
E eis que o ato se consumou.
Se eles ouviram sinos eu não sei, mas eu ouvi um cachorro latindo e umas crianças que passavam correndo ao meu lado.
A cena quase onírica durou apenas alguns segundos.
Logo as duas outras amigas apareceram pulando e gritando. Serviço feito.

O primeiro beijo geralmente é assim, não? Lugares estranhos, esquemas armados por terceiros, aquele misto de medo, vergonha e vontade. Lembrei do meu e fui fazer umas pesquisas no orkut. Achei.

Será que eu poderia repetir agora, tantos anos depois?

25.8.07

Blaaarrggh

"Engorda porque já não cabe em si
E aumenta quando senta ao vão do vime"
- "No Entanto" - Golpe de Estado -

Sexta-feira - aliás pelo horário já é sábado.
E eu aqui na frente dessa merda de micro reclamando da vida.
Eu sei que é ridiculo, me desculpem as três pessoas que acessam o Sanctuarium.

Puta de um calor, lua brilhando lá fora, a Terra girando, o povo bebendo, fumando, bebendo, transando, bebendo, ficando louco, bebendo, beijando, não necessariamente nessa ordem, etc...

Papinho cretino, parece que eu tenho 15 anos...

21.8.07

Rock You Like a Hurricane - Scorpions, 14/08

Pensei em fazer uma resenha igual as que eu escrevo pro Território da Música, mas não vou escrever aqui como 'jornalista' e sim como fã mesmo.
O Scorpions foi a primeira banda internacional que eu assisti ao vivo, isso em 1994, no extinto Olympia. Lembro que tinha 15 anos e passei um puta medo porque não sabia chegar no local. Mas passou e foi maravilhoso.
Agora eu estava novamente com aquele frio na barriga que eu sempre sinto quando vou num show, e pra ver o Scorpions pela terceira vez. E o melhor, agora como fotógrafo!
Munido com minha credencial entrei no Credicard e comecei a observar o público. É incrível como o Rock 'n' Roll consegue juntar públicos tão diferentes em vários sentidos. Pessoas mais simples com outras de aparência sofisticada. Senhores e senhoras com mais de 50 anos ao lado de adolescentes de 15 anos. Camisetas de bandas clássicas como Beatles e Uriah Heep ao lado de Slipknot.
Depois de uma hora de atraso começou a tocar a vinheta que encerra o novo álbum, "Humanity: Hour I", um ótimo disco e um dos mais pesados do grupo. Logo em seguida o grupo entra no palco com "Hour I". Uma porrada! Legal perceber que boa parte da platéia conhecia a música e cantava as letras. Viva a internet e a troca de músicas!
A segunda música foi "Bad Boys Running Wild" e já remetou todos ao disco de maior sucesso do grupo, "Love At First Sting". Deste álbum ainda apresentaram "Rock You Like a Hurricane", "Big City Night" e , claro, "Still Loving You".
Difícil destacar algum momento. Mas particularmente fui ao delírio com a dobradinha "Always Somewhere" e "Holiday", as duas do disco "Lovedrive", de 1978. Emocionante ouvir as 7 mil pessoas no local cantando junto com Klaus Meine!
Aliás, por falar no vocalista, toda a banda está em sua melhor forma! Rudolf Schenker pula o tempo todo - e já é um senhor de quase 60 anos - além de fazer caras e poses para os fotógrafos. Mathias Jabs é mais quieto no palco mas mesmo assim muito simpático. Os dois integrantes mais novos, Pawel Maciwoda (baixo) e James Kottak (bateria) dão um peso extra aos poderosos riffs de Schenker e Jabs.
A sucessão de clássicos contou com "The Zoo", "Dynamite", "Wind of Change", "Blackout", "Send Me An Angel" e "Coast to Coast", entre outras.
Tenho que confessar que é um pouco difícil ficar ali, grudado no palco e lembrar que não posso ficar cantando, mas sim tirando fotos. Parece besteira, mas ficar tão perto de uma banda que você admira é muito emocionante!
Bom, no final, o que dizer? Foi muito bom! Isso é Rock n' Roll!
Veja algumas fotos do show na minha página de fotos:
Post Scriptum: Thaína e Lilian, essa é pra vocês!

20.8.07

- Feito Gente - Walter Franco -

"Feito gente, feito fase, eu te amei como pude
fui inteiro, fui metade, eu te amei como pude
Fui a faca e a ferida, eu te amei como pude
feito bicho que se espanta, eu te amei como pude
quando chega a morte à vida

Feito lixo que se queima, eu te amei como pude
feito chama quando arde, eu te amei como pude

Fui capacho, já fui lama, eu te amei como pude
fui herói, fui covarde, eu te amei como pude
Feito a noite, cedo ou tarde, eu te amei como pude
dói no corpo e mói a alma

Feito água, feito vinho, eu te amei como pude
feito mágua, feito espinho, eu te amei como pude

Fui o poço, pensamento, eu te amei como pude
fui a calma e a revolta, eu te amei como pude
Fui a vela, fui o vento, eu te amei como pude
a partida, fui a volta

Eu te amei como pude,
Eu te amei como pude..."


Walter Franco, um dos caras mais inteligentes da música brasileira e com certeza um dos mais injustiçados.
Mais de 30 anos após o lançamento deste álbum ele continua sendo inovador, espantoso e até estranho.
Coloquei essa letra aí porque, além de gostar muito das músicas de Walter Franco, ela diz muita coisa em uma frase só: "Eu te amei como pude".

5.8.07

"Parecia um conto..."

Ela deu risada ao lembrar daquelas cenas. "Parecia um conto", ela disse baixinho enquanto se encolhia e apertava o travesseiro.

Parecia um conto, mas não era um conto tão extremo de perversidade e crueldade como os contos que ela adorava ler. Contos que o Marquês escrevera em sua vida marcada por prisões e sanatórios. Ah o perverso Sade...

Sua história era muito mais simples, mas até tinha algo de crueldade. E ela apertou os pulsos um pouco doloridos e ainda marcados pelas algemas. Mas não foi dor o que a fez morder os lábios suavemente.

Ela esticou o braço e ligou o som: "I love your skin, oh so white. I Love your touch, cold as ice..." A própria música já era motivo para seu corpo tremer. Ela lembrou como ele pronunciava algumas frases da música em seu ouvido enquanto seu corpo pesava sobre o dela. "Oh, my baby, how beautiful you are... Gone with the sin my darling, and beautiful you are..."

O quarto ainda estava impregnado com o aroma do incenso e das velas que ela mesma levou. Um sorriso largo veio com a lembrança dele amarrado na cama e o gel da vela escorrendo em seu peito. Ela também sabia ser má.

"I worship your lips, once red as wine..." Sim, ela sabia que ele idolatrava seus lábios vermelhos. Todos os lábios, todos vermelhos, todo seu corpo. Soltou um suspiro confiante por se sentir amada e desejada.

Agora ela vivia um conto.

2.8.07

Já foi bom...

Sexta-feira passada assisti mais uma apresentação dos Titãs.

Banda formada em São Paulo no início da década de 80, fez muito sucesso com músicas que traziam letras fortes, o que não era comum na época. "Cabeça Dinossauro" é provavelmente um dos discos mais pesados que uma banda nacional já lançou. E não estou dizendo 'pesado' levando em consideração a sonoridade, mas sim o conteúdo. "Igreja", "Polícia", "Estado Violência"... está tudo lá.

É um disco crítico sem ser infantil como as bandas Punks da época, que tentavam imitar um movimento que chegou ao Brasil com pouco embasamento intelectual e ideológico.

Após a saída de Arnaldo Antunes as coisas foram mudando. O grupo ainda lançou "Titanomaquia", em 1993, um ótimo disco, que depois a própria banda questionou se aquilo era mesmo Titãs, devido ao peso das músicas.

Depois, "Domingo", "Acústico", etc...

Já assisti os Titãs em quatro ocasiões diferentes. Turnê do "Tudo ao Mesmo Tempo Agora", "Titanomaquia", "Acústico" e este, de sexta passada.

As pessoas mudam, as bandas também. O show foi legal, ainda existe uma certa energia no palco, mas transparece um ar burocrático entre os músicos. Um clima de 'obrigação'. Talvez eles tenham perdido o tesão da coisa.

30.7.07

Personagens

Cada um de nós vive sua história, com suas dores e alegrias. Mas na verdade somos todos personagens. Atuamos nesse palco às vezes de forma inconsciente e esse é o problema. Nascemos, brincamos, crescemos, estudamos, crescemos, trabalhamos, amamos, crescemos, choramos e até sorrimos. Mas será que sabemos o que fazemos? Ou somos só mais uma formiga trabalhadora?
E não estou aqui falando de consciência social, dos problemas do mundo, do aquecimento global... tudo isso tem sua importância, mas se não tivermos a consciência da própria existência, dos segundos que gastamos respirando, não vamos poder fazer nada por ninguém, nem por nós mesmos.
Estar atento ao mundo ao redor, a cada segundo que se passa, a cada ato, a cada ação, sentir o tempo passar e não apenas percebê-lo quando olhamos angustiados para trás.

Tenho que aprender como viver esse papel conscientemente.

21.7.07

Eu não sei dizer...

...eu só quero é mostrar.



A cena da foto acima é comum nas madrugadas frias de Santo André. E de qualquer grande cidade.
Esse homem tentava se aquecer com uma blusa e mais nada.
Assim como ele, outros utilizam as barracas de camelôs, próximas à Estação Ferroviária, no centro de Santo André, como abrigo.
A questão é: se abrigar do quê?

21.6.07

O céu do dia triste

Tem dias que são tristes, não tem?
Não, não estou dizendo os dias que acontece alguma coisa que nos deixa triste. Estou falando sobre os dias que por alguma obra divina - ou não - são tristes na sua essência.

Sabe quando o sol está chegando no horizonte e o céu fica com uma tonalidade rosa, laranja? Pois então, esse é o meu dia triste.

Não sei o porquê. Desde criança, eu me lembro, que essas tardes me traziam vários sentimentos. Primeiro uma preguiça, depois uma ansiedade, um desespero e, por fim, uma deprê pesada. Não sei se isso é devido a alguma alteração atmosférica, alguma conjunção planetária ou algo que o valha.

Algum trauma de infância será? Mas isso vem desde a infância! Só se for trauma de outra encarnação. Carma? Será que eu já morri numa plácida e bucólica tarde com o céu alaranjado?

Ou será que é um sentimento premonitório e, na verdade, eu ainda vou morrer?

8.6.07

"Todas as mulheres são loucas, a começar pela mãe da gente"

Toda mulher é louca, menos minha vó.

Primeiro gostaria de pedir calma as mulheres que por ventura caiam nesse blog. Eu admiro muito as mulheres. Todas elas. A começar pela minha mãe, que sempre me ajudou mesmo quando eu tentava me virar sozinho.

Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Essa frase que entitula o texto foi tirada de uma música muito singela da banda Kleiderman, projeto paralelo de Branco Mello e Sérgio Britto, dos Titãs, junto com a baterista Roberta Parisi. Aliás na época desse disco, 1994, a Roberta era lindona. Não sei agora.

Pois então, lindas, sensíveis, gostosas, mas loucas. É inevitável. Mas o 'leque' de tipos de loucas é extenso. E para ser sincero não tenho conhecimento suficiente para escrever um tratado sobre a loucura feminina aqui. Mas conheço uns tipos...

Todo mundo já ouviu alguma garota se referindo ao ex como "o falecido". Essas são perigosas porque demonstram um certo lado 'fêmea fatal', e aqui sem nenhuma conotação sensual ou erótica. É fatal mesmo, pode matar o ex se encontrá-lo. Claro, existem casos que o cara merecia mesmo partir dessa pra outra. Não estou aqui defendendo a classe masculina.

Tem aquela princesa encantada que beija o cara na balada e sai de lá achando que está casada. Não tem muito o que dizer. Carência talvez. Todo mundo é carente meninas, nós também, nós também...

Tem uma louca que não sei como classificar. Louca profetisa? Louca do Apocalipse? Louca pregadora?

Antes era "nunca gostei de alguém como gosto de você", "é óbvio que nossa ligação é algo além do que podemos entender", "nunca consegui dizer isso, mas Eu te Amo". Bonito né?

Depois, com o fim do relacionamento por culpa principalmente dela - e mesmo ela assumindo a culpa - ela vira e diz: "Ele? Ele foi um enviado do Inimigo na minha vida". Aos que não sabem, Inimigo é a nomenclatura utilizada pelos neo-pentecostais para designar o cramulhão, o coisa ruim, o chifrudo, o capeta.

Ai, ai... O que seria de nós, réles mortais masculinos, se não houvessem vocês e suas loucuras para nos enlouquecerem e nos redimirem?

5.6.07

Rosa

Rosa.

Não, o nome dela não é rosa, talvez se fosse ela usaria mais verde. Ou amarelo.
Ela tem dúvidas. (Mas quem não tem?)
Ela tem medo de crescer... eu acho. Não sou psicólogo - apesar de querer muito ter feito psicologia - mas eu vejo isso.
Ela tem é medo de ser mulher. Ela quer apenas ser menina, talvez ainda brincar com uma boneca, escrever em seu diário - mesmo que seja virtual.
Ela desvia o olhar quando a gente olha bem dentro dos olhos dela. Desvia o olhar, abaixa a cabeça e mexe no cabelo.
Ela escreve muito melhor do que a maioria da turma mas tem crises em relação à isso.

Ela usa rosa.

14.4.07

Reencontro

- Boa noite!
- Nossa! Você por aqui?!
- Oras, oras... você bem sabe que eu estou sempre por aqui!
- É que você andou um tempo sem aparecer. Tinha até me esquecido de você.
- Ah, esqueceu nada. Você acha que depois de todo esse tempo eu ia sumir assim, sem mais nem menos? É verdade que eu fiquei um tempinho longe, mas o importante é que agora estou aqui!
- É verdade...
- Agora abra esses braços e diga bem alto: Olá Solidão!

7.4.07

Se eu quiser falar com Deus...

Dizem que recebemos um dom quando somos chamados para esse passeio nesse mundo. Tenho minhas dúvidas se todos recebem... Mas tem pessoas que são abençoadas por certos dons. Aquele que escreve, o que pinta, o que toca. Podemos aprender e desenvolver essas aptidões. Pelo menos é o que se ouve por aí. Basta ter tempo, aprender, treinar, treinar, treinar...

Bom, eu não tive tempo pra treinar. E a vida corre. Em compensação, aqueles que não tem o tal dom, podem pelo menos desfrutar a obra dos que têm. E isso - quase - me basta. É assim que eu faço se quiser falar com Deus.

Eu falo com Deus quando ouço uma música que de alguma forma traduz algo que sinto, ou senti. E com todo mundo é assim, por isso as músicas se tornam sucesso. Não é só o instrumental que, obviamente, tem um papel importante nos sentimentos transmitidos.

Tem coisas que lemos, ou ouvimos, que nos transporta, nos faz viajar. E isso não é papo de "bicho-grilo". É assim que eu falo com Deus.

Essa letra aí de baixo, por exemplo, não poderia ter um nome melhor:


Poema

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo, mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim

De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás

Poema - Frejat/Cazuza